A prática quotidiana do desenho

texto de Delfim Sardo

 

(originalmente publicado no catálogo do Prémio EDP Novos Artistas 2007-
neste prémio foram expostas as séries a natureza do desenho, tempestade e série aberta a mais de um criador)

 

 

O desenho é a principal ocupação de Daniel Melim.

Ocupação e não “técnica”, ou “suporte”, porque a prática do desenho se desenvolve no seu percurso (ainda recente) de uma forma continuada e sistemática, como uma actividade permanente na qual nao existe qualquer separação entre componente teórica e realização. 

O desenho não é como qualquer outra disciplina artística, porque não possui, há muito tempo, qualquer barreira que defina um cânone, ou que estabeleça uma hierarquia de procedimentos. Na prática de desenho de Melim, essa possibilidade anti-disciplinar surge como um banco de ensaio de questionamento das componentes holísticas da prática artistica, sabendo que, na pluralidade de dispositivos e metodologias que Daniel Melim desenvolve, não se prefigura nenhum sistema arquivístico do desenho, mas um contínuo no qual diferentes metodologias e procedimentos contribuem para uma vivência crítica do desenho. 

Na contribuição de Daniel Melim para esta exposição existe uma variedade de tipologias da prática do desenho, que se encontram disseminadas na multiplicidade de propostas que o artista apresenta. 

Nas mesas encontram-se desenhos que constituem uma seleção efectuada por Melim a partir de uma produção muito mais ampla. Nas tipologias apresentadas, todas efectuadas no mesmo formato de suporte, podem-se encontrar: desenhos com diversos materiais inscritores (lápis, tinta-da-china, esferográfica, marcador), bem como desenhos coloridos (a aguarela e lápis de cor); encontram-se ainda desenhos claramente figurativos, isto é, o chamado “desenho de contorno”, frequentemente de situações domésticas ou de paisagens; existem ainda desenhos que possuem uma ocupação mitigada da pagina, evasivos e fugidios, muito próximos do doodle, isto é, do desenho informal e de composição involuntária. Encontram-se ainda desenhos que partem de tipologias expressivas muito diversas: desde desenhos que, de uma forma musical, seguem uma tensão do campo visível, alguns muito próximos das propostas de desenho de paisagem de Joao Queiróz, outros que, exactamente pelo contrario, partem de marcações mais ou menos rigorosas da página, como se centrados sobre  própria disciplina do traço, de uma forma linguística e analítica da prática. 

No interior deste universo de multiplicidade de procedimentos, existe ainda uma diferença significativa entre desenhos que incorporam uma estrutura narrativa acidental ou voluntária (nunca e clara a sua natureza), obtida atraves da inscrição de anotações, números, contas, ou texto. Essas anotações podem tambem ser registos visuais, como se fossem apontamentos preparatórios para algo que se virá a encontrar noutra escala, ou noutro lugar – o que por vezes acontece, mas outras vezes se encontra como referência interior do próprio desenho, replicado numa mise-en-abyme

Na variedade aparentemente enciclopédica da coleçcão de desenhos colocados nas mesas existe ainda uma segunda clivagem, só intuida pelo espectador e nunca explicitada pelo artista, que reside na partilha autoral de alguns desenhos: no mapa de procedimentos dispares que se pode encontrar, existe um conjunto de desenhos que correspondem a convites que o artista efectuou a outras pessoas (artistas ou não) para desenharem algo. Sobre esses desenhos, Melim desenha outra vez, não sendo nunca claro se se trata de um trabalho de colaboração, isto é, de uma partilha de autoria, de uma dissolução da questao autoral, ou de tomar o desenho como uma actividade que se pode exercer num regime “todo-o-terreno” – qualquer suporte é valido, incluindo o que já foi ocupado por outro desenho. 

Para além dos desenhos existentes nas mesas, Daniel Melim usa tambem a parede, na qual realizou um desenho. Trata-se da ampliação de um outro desenho que previamente projectou, efectuando, desta forma, urn meta-desenho, isto é, um desenho de um desenho, que por sua vez era já uma representação de uma paisagem, isto é, configurava-se como um processo canónico representacional. Nesta passagem por sucessivas camadas ou instancias de representação joga-se uma perda expressiva, uma transformação da mão que, em intensidades diversas, tinha definido uma partitura do visível, para uma segunda metodologia não-expressiva, quase documental e claramente gráfica. 

Assim, a proposta no campo do desenho de Daniel Melim consiste no estabelecimento de um campo fluio, um contínuo de prática e reflexão sobre ela – como também de reconhecimento do próprio corpo – a partir do desenho como uma discilpina sem cânone. Existe, sintomaticamente, uma crença no interior do seu trabalho: a de que o desenho é o campo transversal mais democrático entre as práticas artística e as actividades exploratótias não-artísticas. Nesse sentido, o projecto de Daniel Melim, nomeadamente este que apresenta agora, configura um programa em desenvolvimento de entendimento do desenho como uma actividade performativa trasnversal. E nessa permeabilidade assenta a sua poética.