texto de Eucanaã Ferraz

 

(texto originalmente publicado como folha de sala da exposição individual
na Galeria Mercedes Viegas, Rio de Janeiro, 2011)

 

 

Ao ver a pintura de Daniel Melim, lembro-me de Matisse, de um certo Matisse, de suas primeiras pinturas, em que os ambientes exibem colorido intenso e estamparia abundante em lençóis, toalhas de mesa, estofados, tapetes, papéis de parede, biombos; e também dos quadros que pintaria muitos anos depois, em Nice, na década de 1920, em que a profusão de tecidos estampados com flores, listas e arabescos serve de cenário para suas odaliscas, nuas ou seminuas; e ainda, de seus óleos e desenhos que, já no final dos anos 1930, retratam mulheres em trajes de padrões exuberantes e que não raro trazem por títulos apenas “La robe de lamé”, “La blouse roumaine” ou “Femme collier, blouse brodée”. Nessas obras, os tecidos estão sempre em ambientes fechados, embora como uma espécie de “natureza-morta” que se estende para além das convenções do gênero. E ainda, o pintor, não raro, acrescentou a esses espaços um vaso com flores ou um cesto com frutos, ou pintou uma janela aberta, criando, com isso, uma espécie de eco, ou sobreposição (poder-se-ia mesmo falar em mise en abyme). Quando vemos essas telas, a sua extraordinária beleza quase nos impede de lembrar que Matisse, ali, pintava o já pintado – os tecidos (ou, pelo menos, buscava tal efeito). 

 Daniel Melim abre de vez a janela aberta por Matisse e põe seus tecidos em contato direto com a natureza: colunas e volumes irregulares de fazendas estampadas parecem dançar ao vento sob um fundo azul que semelha o céu limpo das manhãs de verão. Mas tal aproximação não confunde arte e natureza, antes, faz saltar aos olhos aquilo que já quase não percebemos em Matisse: o tecido como coisa pronta, pintura antes da pintura. 

 Mas se nas telas e desenhos do mestre francês estamparias e bordados vestiam objetos, ambientes e personagens, na pintura de Melim eles valem por si mesmos: os tecidos são apenas os tecidos – cores, flores, listas – aqui atados por nós, ali superpostos, formando volumes, adiante dobrados em livres espirais de ritmo orgânico. Melim, portanto, parece pintar esculturas livres de figuração, ou sutilmente figurativas, e, assim, sua pintura, sem ser exatamente abstrata, aproxima-se da abstração.

 É com grande alegria que também vejo nesses trabalhos a síntese e a intensidade, a luz e a leveza dos poemas de Eugénio de Andrade ou de Sophia de Mello Breyner Andresen, portugueses como Daniel Melim. 

 Há liberdade e ritmo nos seus quadros. E deles salta o que neles não está senão como presença invisível mas certa: a luz do Alentejo, a brancura da cal, o rumor do vento, das folhas e das abelhas.