A pintura que acontece

texto de Maria do Mar Fazenda

 

(originalmente publicado em Fevereiro de 2011 no número 80 da Revista L+Arte,
acerca da individual de 2011 no Módulo-Centro Difusor de Arte,
onde se expuseram as pinturas do ano de 2010)

 

 

A prática do desenho, da pintura ou da fotografia proposta por Daniel Melim (Lisboa, 1982) envolve sempre um conjunto preeiso de instruções. As tipologias são várias e experimentais, desde o desenho que é desenhado pelas intenções de um observador, ao desenho que é desenhado colectivamente, ao desenho que é desenhado sobre desenhos abandonados pelo artista, ou aos desenhos do acaso, desenhados pela temporalidade da realidade, sobre muros, chãos, fachadas da eidade – como as imagens que o artista tem vindo a reunir, sob o mote “Ninguém faz a arte que os teus olhos acordam na cidade”. 

No seu processo de trabalho há sempre um investir num outro – na imaginação de um outro, na mão de um outro ou na prescrição que distingue um outro em si mesmo. Na exposição “Pintura”, agora patente na Módulo, o protocolo seguido foi, primeiramente, o de utilizar um perspectógrafo – o olhar do desenho é mediado por uma membrana transparente ou por uma rede, que se coloca entre o artista e o objecto – para a sua construção visual. Mas, logo surge uma contra-regra, Melim utiliza o mecanismo renascentista não para desenhar mas para pintar. As manchas de cor não são permeáveis, como o sao a sobreposição das linhas de contorno a partir das quais o desenho se constrói, na pintura a sequência da representação sobrepõe-se, encobrindo as camadas de um tempo primeiro. Dá-se, assim, uma inversão sequencial da representação: o padrão,o pormenor, o brilho do objecto retratado são os primeiros elementos a integrar e em último lugar é aplicado o fundo, o céu, que cobre por completo a arqueologia ali erguida. Afinal, a pintura acontece no verso da pintura. Ao observador é reservado um nivelamento: adivinhamos que a membrana contém nas suas costas a arqueologia desse processo, que é a pintura. Colocando-nos na mesma posição de inquietude, que terá sido própria do movimento do artista entre o olhar (memorizar) e o pintar (de memória) do objecto. Já que o objecto está, na pintura, ao contrário de ser representado, em processo de apagamento. 

Três situações são-nos convocadas peio procedimento do olhar que aqui é recuperado por Daniel Melim. A gestualidade de Pollock sobre um fundo de céu a derramar tinta sobre um chão transparente, registada no filme de Hans Namuth em 1950. No mesmo ano, Picasso é filmado no seu ateliê em Antibes, a pintar vários dos seus temas obsessivos com fluidas linhas brancas sobre superficies de vidro colocadas verticalmente entre o artista e a câmara de filmar. Os retratos de José Pancetti, modernista brasileiro, a pintar na Lagoa de Abaete, capturados por Marcel Gautherot, em 1956. 0 efeito de continuidade entre o espaço da pintura (sobre vidro) e o que está em seu redor espelha o mote principal da obra de Pancetti: a interpretação da paisagem natural e humana de um lugar. É também uma recorrência no trabalho de Melim o diálogo com a História da Arte, ou melhor, a revisão de parâmetros clássicos por via da ampliaçãao das possibilidades de determinados cânones. Subvertendo modelos de produção e de representação clássicos, o trabalho de Daniel Melim reinventa o gesto exaustivo de Pollock, o jogo entre figura e artista proposto Picasso e autonomiza a imagem desse espaço-tempo no qual a construção modernista se ancorou.