Impasse

texto de Pedro Faro

 

(originalmente publicado na edição em janeiro de 2011 no número 79 da revista L+Arte)

 

 

No impasse que se estabelece entre criação e execução, as obras de Daniel Melim trabalham o universo matérico da pintura e a dimensão autoral do desenho. Através de vários dispositivos ou procedimentos, estabelece-se uma original dialéctica que permite a emancipação de imagens familiares mas enigmáticas.

Numa nota biográfica, Daniel Melim refere que se tem “debruçado sobre práticas artísticas de representação a partir da tradição das artes visuais. Tem desenvolvido um trabalho autónomo de pintura acerca da questão da própria pele da pintura (as suas pinturas são apenas tinta, sem suporte) e da relação com um objecto/modelo fisicamente presente”. A ancoragem do gesto criativo numa circunstância humana muito simples ou a capacidade de enraizar a vida de um modo criativo revela-se fundamental para as obras deste artista, que desafia os protocolos decorrentes de práticas artísticas tradicionais. “Por outro lado, tem expandido uma certa vocação enciclopédica da sua prática desenho até ao ponto de desenvolvimento de sistemas de fazer imagens em que está presente a vontade de mais do que uma pessoa só”, diz o artista na mesma nota do seu portefólio. Podemos encontrar os seus trabalhos de pintura e de desenho nos blogues referidos em cima. Neste momento, desenvolve, em paralelo, o projecto Zé Ninguém, uma recolha de exemplos de “arte sem querer”, seguindo o mote de que “ninguém faz a arte que os teus olhos acordam na cidade”.

Começou a desenhar na casa dos avós, ainda criança, e foi lá que viu o primeiro livro de pintura que, mais tarde, daria origem a uma série de obras, de tinta acrílica, com o título Do Primeiro Livro de Pintura que o Autor Viu, 2009. Interessou-se desde cedo pela natureza do desenho, pela sua história e pelas suas circuntâncias autoriais, numa investigação aberta a múltiplos tipos de desenho, desde os mais geométricos aos mais fluidos, dos mais rigorosos aos mais gestuais ou contidos. Ângelo de Sousa é uma importante referência neste desenvolvimento, mas não a única, num percurso que se divide ente desenho e pintura: Hockney, Saul Steinberg, Picasso, Lourdes Castro e Manuel Zimbro, Van Eyck, Morandi, Vermeer, Holbein, ou a Krazy Kat de George Herriman… Quando se refere à série de desenhos A Natureza do Desenho, 2004-2007, Daniel Melim diz que “a maioria das vezes os desenhos começam por ser desenho da natureza, in loco, e depois abrem-se a imagens e atitudes que são sobretudo da natureza do desenho: símbolos, cópias, rascunhos, abstracções. Constituem uma relação com o mundo visível com o seu quê de enciclopédico nas frequentes mudanças de atitudes e referências”. A série Tempestade, 2007, amplifica os valores anunciados na série anterior, explorando a cor e a mancha de modo espressivo, importando, ainda, certos referentes estruturais mínimos, provenientes da banda desenhada. Na Série Aberta a Mais de Um Criador, 2007, os “desenhos são começados em cima de desenhos (32 x 24 cm) anteriormente feitos pelo autor mas considerados insatisfatórios”, por outras pessoas convidadas a desenhar de acordo com regras muito precisas definidas pelo artista. Cada convidado trabalha um desenho apenas, retirado aleatoriamente de uma pilha disponível. E cumpre as ordens de uma segunda pessoa, sentada à sua esquerda na mesa de trabalho. Alguns desenhos sofrem, ainda, uma intervenção final do artista. Participaram 17 pessoas neste processo, que questiona a dimensão autoral de uma obra e de um suporte específico como o desenho, geralmente entendido na sua produção de um modo individualista. O que é um autor? Será um produtor?

Na exposição do Prémio EDP Novos Artistas , em 2007, várias vitrines mostravam as três séries de desenhos referidas, numa lógica quase documental. Ainda no âmbito desta disciplina, Daniel Melim tem realizado desenhos murais, em equipa, e situações como Desenho Livre, em 2008, nos Espaços do Desenho, em que se expõe a um público variado, para “materializar toda e qualquer imagem que o público pedisse”.

 

 

RAÍZES DA PINTURA

A obra de arte instala uma verdade no mundo? Derrida lembra-nos, em La Verité en Peinture, a célebre frase de Cézanne numa carta a Emile Bernard, de 23 de Outubro de 1905: “Je vous dois la vérité en peinture, et je vous la dirai”. Mas que verdade é essa? Para Derrida, e tendo em conta, inicialmente, o pensamento de Heidegger sobre a origem da obra de arte, sobre o ser das coisas, e sobre a sua enigmática presença, a verdade seria da ordem do traço e da escrita, ou seja, factores determinantes na composição de um enigma sugerido nuam determinada obra, constitutivo de uma expressão abissal em torno da “verdade da verdade”, sublinhando o paradoxo de uma verdade não verdade que se articula, na pintura, de quatro modos distintos: apresentação da representação, apresentação da apresentação, representação da representação e representação da apresentação. Para Matisse, citando Delacroix, “l’exactitude n’est pas la vérité”. A presentificação de enigmas figurativos é uma constante na obra de Daniel Melim, sejam elas pinturas ou desenhos; verdades derridianas insatladas num determinado suporte, sem um referente literal óbvio, extraídas de um modelo construido ou apropriado do quotidiano, estruturadas numa série de regras que operam sobre os protocolos convencionados da percepção e da representação, da visão, da luz e da cor, das relações entre forma plástica e forma pictórica, numa ambiciosa grelha conceptual que nos apresenta um real distinto, fragmentado e isolado. O “direito à pintura” é, assim, renovado num trabalho que surge a partir de um estimulante e original impasse entre criação e execução, numa complexa rede de ligações e confrontos que se tece entre diferentes elementos de um processo que, de modo quase indiciador, faz surgir uma determinada imagem radicada num específico património real, cultural e visual, através de diferentes inscrições lumínicas, cromáticas, plásticas…

Daniel Melim explica que as suas primeiras “pinturas são feitas sobre vidro. O vidro é colocado entre quem pinta e o objecto que, em cada ocasião, for o modelo da pintura. Como no perspectógrafo renascentista, o observador tem de escolher cuidadosamente o seu ponto de vista e estar absolutamente quieto durante o processo de criar a imagem, durante muitas horas. As pinturas são feitas com tinta acrílica. Depois de feita a imagem, é dada sobre o vidro uma última camada de tinta muito espessa. Quando esta camada seca, a pintura é retirada inteira do vidro. Esta autónoma  placa de tinta é o que se expõe, colando-se com fita-cola dupla à parede da exposição, à maneira de um poster”.

A grelha inscrita numa superfície transparente rectangular – perspectógrafo – inicialmente vidro (como no Grand Verre, de Duchamp), actualmente uma membrana acrílica permitem a Daniel Melim estabelecer e controlar no processo de execução os mecanismos inerenetes à revelação da imagem que, a partir de um referente que se metamorfoseia, se vai constituindo presença num espaço e tempo específicos. Assim, não estando presente na imagem revelada como elemento visível,  a grelha, inscrita no perspectógrafo, estrutura-a. Para Rosalind Krauss, “apesar de a grelha não ter certamente uma história, é uma estrutura que, além de tudo, permite a contradição entre os valores da ciência e do espiritualismo (…). Pela sua própria abstracção, a grelha exprime uma das leis básicas do conhecimento – a separação do ecrã perceptual daquele do mundo “real”. É sobre a pele da pintura que parte substancial do trabalho de Daniel Melim investe, numa eficácia estética decorrente de uma perturbante suspensão da evidência narrativa. Não há uma história para contar. Os fragmentos do quotidiano, ou das formas importadas presença de um modelo quase abstracto, revelam proposições figurativas enigmáticas. A particular relação das cores entre si, entre figura e fundo, denotam um modo de ver, ser e sentir alicerçado numa luminosidade intensa e profundamente significante.

Quando retira a pintura do vidro interessa-lhe mostrar a precaridade desta construção, porque a pintura, para Daniel Melim, “é uma construção e é algo precária”, apesar da força de certas imagens. Há algo de fotográfico neste processo, há uma imagem que se vai revelando, cores que sintonizam um capital evocativo que, apesar de silencioso, exprime calor e pertença.