Sobre a série a natureza do desenho

 

 

Estes desenhos nasceram dos aparos do meu avô, os que lhe sobraram da escola primária. Estes desenhos foram feitos ao longo de dois anos. A maior parte deles vem de uma relação directa com um fora (um modelo). Outros são feitos a partir das folhas onde se limpava a tinta em excesso ou se aquecia a mão antes de desenhar. Outros ainda são feitos de imaginação.

O desenho nada exclui, embora naturalmente seleccione. A sua vocação é abarcar desde as plantas ao embrulho do último rebuçado, do graffiti a padrões geométricos. Uns traços são desenho da natureza, outros apenas da natureza do desenho. A natureza, aqui, é uma que engloba as criações humanas também. A observação, aqui, atenta ao dentro e ao fora, sem dualidades que oponham o que é recebido ao modo como isso é feito. Se a forma observada no exterior suscita um foguetão, desenhá-lo é também natural.

A folha é uma área vazia onde o que se quiser. O desenhar nesse recomeço a partir do vazio ergue um olhar que se espanta, que não pode deixar de ser novo se está atento e diz essa atenção. Não há o acidente ou o erro, tudo conta (rascunhos, rasuras, formações inconsequentes ou inesperadas ou inconvencionais ou convencionais ou linguísticas ou avessas a ideias). Repara-se que às vezes o desenho já vem feito, não sendo a “materialização da vontade expressiva” mas o acto de descobrir o que já lá estava enquanto respingo rascunho nota de supermercado ou qualquer forma que nasceu sem intenção estética alguma. Não há mau desenho, pode é haver falta de atenção.

Essa vocação enciclopédica do desenho que parte de uma observação directa do exterior (as mais das vezes um exterior vegetal ou de objectos quotidianos de casa ou atelier) será informada também pela ilha da Madeira, onde estive dezoito anos. Lá, onde a vegetação irrompe sem pedir licença e a terra dá naturalmente várias colheitas ao ano, a vitalidade orgânica perspassa tudo. A enorme escala dos paredões rochosos, amplificada pelo imenso vazio oceânico, dá às montanhas o poder mítico de gigantes inabaláveis, motores ininterruptos de criação vegetal transbordante. Uma mescla intrincada de águas, veios, árvores, pássaros, insectos, que bombardeia a imaginação substituindo modos de pensar por maneiras da água circular. Mas a natureza é aqui observada à distância de uma cultura: sempre vivi na cidade. Na percepção vem a memória de anúncios publicitários, no traço vem a síntese das publicações.

Sinto-me mais confortável dentro da tradição da poesia portuguesa do que dentro da da pintura. A ideia de um conjunto de sinais gráficos dispersos com parcimónia na folha branca, sinais que emanam significados ou presenças sensíveis sobre o mundo, é-me mais cara do que uma certa retórica pesada e auto-justificativa das artes visuais. Num país de poucos recursos, ou de pouca gestão deles, as palavras tomam especial luz criativa, sobretudo com a dimensão especulativa e sensível do seu povo. Ademais escreve-se (como se desenha) em qualquer lado e com pouca logística, atento aos dentros e aos foras, sobretudo atento ao corpo que os une.

O centro-sem-centro do espírito é a própria liberdade de circular pelas diversas matérias do mundo e designar traço apenas como e quando lhe aprouver. Ergue uma planta-de-desenho frágil e sensível, sabendo-se volátil e provisória, tomando a dado momento forma própria.

No jardim que o meu outro avô conquistou a um baldio, a terra vem misturada com pecinhas de brinquedos, de mecanismos e outras coisas lixadas. Ele diz que o solo fica mais fértil por causa do ar que todas essas coisas criam na terra. Muitos desenhos são como um torrão de terra tirado desse jardim: vem com plantas, terra, raízes e pecinhas de brinquedos, bocados de construções humanas.

Estes desenhos foram expostos no Prémio EDP Novos Artistas 2007, na Central do Freixo, no Porto.

 

Daniel Melim, Lisboa, 2007