A propósito de um pequeno lobo que quer voltar à floresta.

(sobre a exposição História do Futuro)

 

(originalmente publicado no catálogo História do Futuro (2/4 cat. estados-gerais).
Edição bilingue em língua portuguesa e inglesa. Lisboa: estados-gerais, 2011.)

 

 

 

Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas,
só faltava uma coisa – salvar a humanidade.”

 

José de Almada Negreiros, in A Invenção do Dia Claro, 1921

 

 

 

Perguntas são pó que se levanta quando se passa muito tempo a dançar num descampado. Quem diz descampado diz galeria, quem diz dançar diz pensar-unido-a-sentir. Quem pergunta põe coisas grandes ao pé de pequenas, mistura o velho com a criança, trás a adolescência eternamente às costas da maturidade. É inocente, então é pergunta. Uma pergunta é sempre um som de criança saído de dentro da boca de um velho. Água dentro de bilha de barro. Água dentro de bilha de barro. Saciar é sempre lavar a cara, beber, querer, sentir saber. Por um instante, se é sensível e não afectado, o bebedor de perguntas para antes de unir a sua boca à água da bilha e contempla lá por dentro na água ainda quieta e escura o seu rosto reflectido jovem. Na superfície ainda lisa, antes de começar, o rosto é reflectido sempre idealmente. Bastará um levíssimo sopro, um agitar ansioso de mãos, o próprio movimento de querer beber, e a água, trememente enrugando, rápido fará do reflexo do bebedor o rosto deformado de um velho. Depois, no instante de beber, no instante de perguntar, todos os tempos confluem e a cara une-se ao reflexo. Deixa então de ver-se, de pensar no tempo, e sente apenas o fresquíssimo correr da água entre o mundo e si.  Tem, em um momento fora do tempo, um vislumbre sentido do que é não haver separação.

Marcellvs L., VideoRizoma, desde 2002, Dv PAL, cor, som

Desse sítio de sede e jorro, e a partir desta História do Futuro erguendo um furibundo perguntador – como uma enorme cabeça de barro contra a qual nos possamos medir – expomos aqui então um ciclo de três molhos de perguntas à qual o leitor se pode ele mesmo expor. Contando que o faça respirando entre os parágrafos, de maneira a não se engasgar e a poder olhar o seu próprio rosto antes de cada gole, seguramente que encontrará no modo como a água ecoa no seu interior já o início de uma sua viva e actual resposta. Se o leitor abrir os olhos durante, isto é um espelho. Se fechar os olhos, é só som. Creio que precisará das duas atitudes, por uma questão vital de sobrevivência.

1. Como criar em conjunto? É possível incluir a comunidade, em quantidade e qualidade, no trabalho artístico? O que é comunicar, colocar em comum? O que é um consenso? A identidade colectiva é iminentemente passiva, preconceituosa, estéril e baseada no medo? Qual hoje o sentido activo da nossa identidade comum? A incompatibilidade de fundo que parece haver entre as comunidades artística, ecologista, espiritual e de esquerda são afectações egocêntricas ou estruturalmente necessárias? Até que ponto queremos realmente resolver as coisas? É possível a arte Servir aos outros? Quando é que uma aspiração comum pode evitar cristalizar-se em monoteísmo intelectual e ainda assim viver significativamente? Quando é que o fazer colectivo é sobretudo histeria hippie e quando é que o fazer colectivo se funda ainda nas aspirações das gerações de 60 mas é mais consequente e profundo? Até que ponto é a escala de uma ambição a medida do seu potencial de gerar desumanidade? O que queremos realmente mais: entrar em acordo ou ter razão?

Eli Noyes, Aspen 70, 1970, 23’03’’, DVD PAL, cor, som

2. Porque nos parece que a Natureza é a base de muitas das soluções possíveis? Até que ponto usamos a interpretação que fazemos da Natureza para legitimar um interesse que tenhamos no momento presente? Será o Natural aquilo que É Assim há tanto tempo que nem nos lembramos do início e então chamamos-lhe Natureza? Virá a beleza com o hábito? Porque é que conceptualizamos só para apresentar em aparente coerência intelectual posições que são iminentemente de empatia ou aversão? É honestidade intelectual um oxímoro, uma impossibilidade tácita? É possível um enraizamento da Arte no corpo do mundo sem o questionamento prático dos preconceitos e afectações que normalmente nos fazem mover? Até que ponto a cadeira burguesa em que me sento a pensar isto mina a profundidade e honestidade das respostas? Até que ponto e tipo de conforto estamos realisticamente dispostos a abdicar? É possível não submeter a motivação mais funda e inicial à sedução da forma? É possível não submeter o amor à ironia? O que raio tem a Arte a ver com amor? ? Até que ponto a obstinação em lidar com as questões racional e verbalmente não é um obstáculo à própria resolução das questões? Quando é que a sensibilidade é afectação e quando é que a sensibilidade é plena-ligação ao que a rodeia? Como partilhar a criação sem “desfazer o segredo”? É a verdadeira arte alguma vez arte? Quando é que os artistas largam os materiais e vão plantar?  Se a humanidade subitamente deixasse de existir, o que aconteceria ao interior de um White Cube nos dez anos seguintes? E nos cem anos seguintes? E mil anos depois?

 

3. (Nuno da Luz) O que tem som do vento a ver com o vento que há no ouvir? O que tem o som do vento a ver com a eficácia afectiva de um abrigo? O que tem a ineficácia de um engenho a ver com a sua eficácia imagética? O que tem uma tenda a ver com sensibilidade? O que tem a sensibilidade dos materiais a ver com a sua capacidade de penetração nas pessoas? O que tem a cor prateada a ver com um passado que o futuro já teve?

(Eli Noyes) O que tem a cor saturadíssima de certas imagens a ver com a nossa empatia emocional com ela? O que têm as televisões antigas que as de hoje não têm? O que tem o ontem que o hoje não tem? O que tem o amanhã que o hoje não tem? Que amanhã se tinha em 1970? Porque é que as questões de então continuam penduradas nos nosso olhos? Porque é que continuamos sem saber reunir eficazmente e acolhendo até mesmo a contestação? Quando é que a distância poética a essas imagens antigas de reunião e contestação é empoderadora e quando ela é alvo de ironia fácil?  

Joana Escoval, Olea europaea, var. europaea, (fase de adaptação) 2009,
esferográfica, ecoline e lápis s/ papel de bambu,
papel de arroz, fio de linho; vista da instalação

 

(Joana Escoval) Quão antiga é a imagem de uma planta? Quanto tempo dura em nós a abertura sensível e inteira à existência, por exemplo, de um novo rebento de ramo numa oliveira? Que diferença há entre um desenho preso a uma parede e um que está suspenso no ar? O que acontece se a visão súbita de muitos desenhos de algum modo sobrepostos é temperada com a existência de muito ar entre eles? O que há nas plantas que nunca enfada? Quanta ética há num inútil gesto artístico? Pode a atenção ao desenho dos ciclos estender-se até a toda a disposição de materiais necessária para expor uns meros desenhos?

(Martin Beck) Pode a palavra dos ecologistas afectar o crescimento das folhas na floresta aonde eles falam? Pode o ecologista parar muito tempo no mesmo sítio na floresta, sabendo que “esmagará até à morte o frágil rebento de erva que nasce” a seus pés? Pode o olhar detectar ordem na Natureza sem ficar preso aos conceitos que usou para dar conta dessa ordem? Pode a ecologia ser sobretudo retórica, um outro tipo de fuga, tanto mais dissimulada quanto pretende ser prática e “natural”? É possível rir de toda a parafernália activista e ficar apenas com a natureza? É o ecologista uma aberração da Natureza? É o Homem natural?

(Marcellus L.) É a visão uma coisa normal? Será mais normal ter defeitos na visão do que não ter? É possível a imperfeição ser perfeita? É possível o arranhar do vento excessivo no microfone ser delicioso? É possível que a mera presença de som de vento erga para as imagens um lugar simultaneamente poético e enraizado no corpo do mundo? É possível que o acaso nos leve a lugares pertinentes? Há alguma poética exigente e passível de ser acolhida por todos? É possível a visão ser uma dúvida? O que se avista ao longe é realmente o que é ou o que se julga que é? É o Futuro um estranho que caminha desde o horizonte na nossa direcção e em adivinhação de cuja ainda longínqua cara projectamos já e a cada momento os nossos fantasmas passados? É possível essa experiência angustiante ser inteiramente vivida e acolhermos esse estranho de braços abertos?

 

 

«O que me fascina é esta capacidade [Mexicana] de flirtar com a Modernidade sem nunca ceder. Suponho que na nossa era de Economia Global de Mercado se possa argumentar que a Modernidade nunca foi alcançada. Mas o que interessa agora é a sua memória, quer tenha sido realidade ou ficção. Podes ter saudades de uma coisa que nunca chegou a acontecer.

[…]

«A permissão poética instala um hiato no contexto atrofiado de uma crise (…)Através da gratuitidade ou absurdo do acto poético, a arte provoca um momento de suspensão do significado, uma ligeira sensação de absurdidade que revela o absurdo da situação em geral e que, através deste acto de transgressão, faz-te dar um passo atrás e rever as tuas convições anteriores acerca desta realidade. E quando a operação poética consegue provocar aquela súbita perda do Eu que só por si provoca um distanciamento da situação imediata, então a poética pode ter o potencial de despoletar um pensamento politico.

[…]

«(…)penso que hoje é difícil fazer passar uma atitude que não esteja conforme o clima de cepticismo e critica sistemática, uma atitude que seja mais optimista ou até inocentemente utópica. Palavras como “mudança”, “fé” ou “ponte”, quando não vêm saídas da boca de políticos ou pastores evangélicos, parecem um tanto desapropriadas. »

 

Francys Alys, entrevistado por Russell Ferguson, in Francys Alys, Phaidon Press Ltd., London,2007

 

 

 

« (…)

só a sensibilidade pode cuidar e responder adequadamente à vida, à ordem, ao mundo,

a coisas tão importantes como por exemplo a natureza,

disso que é inteligência sem causa, em equilíbrio,

e não do chamado ambiente, que é disso que se rodeia o ego – a única maneira eficaz de proteger a floresta ainda virgem, é não pôr lá os pés.

é ainda ela a sensibilidade que responde ao lampejo deste agora,

um único em toda a nossa vida.

(…)

«a sociedade dos homens é a relação dos homens, não é os homens.

na comunidade dos homens, onde cada um “puxa para si”, como poderá haver comunicabilidade, comunhão?

caso houvesse:

na base de uma Confiança comum estabelecer-se-ia de facto uma relação

haveria livre comunicação, tudo passaria a ser comunicado e naturalmente haveria a compreensão de um sentido comum,

é comunicação livre e directa que instaura a comunidade, e não a administração de qualquer politica ou religião, que parecem esgotar a realidade, gerindo-a como uma empreitada.

comunicar livremente é comunicar sem barreiras, com confiança, sem programas – isso é o silêncio,

não há premeditação, diz-se o que se tem a dizer – simplesmente com seriedade entra-se em comunicação,

e quando se está em comunicação, está tudo dito

o que é importante passa pelo silêncio, pelas palavras do silêncio

é o silêncio –imobilidade psicológica- que cria a ordem, não é o pensamento,

o que o pensamento cria são as barreiras, os programas, paraísos e infernos

com os quais as tais administrações constroem as instituições, as leis, que não podem ser sérias porque são solidamente fixas,

e não sendo vulneráveis atropelam a Liberdade.

a relação harmoniosa, surge da clara compreensão do que se é,

e não é uma receita, mandamento, método ou lei que a cria.

quantas são as instituições que caminhem nesse sentido? »

 

Shingen Manuel Zimbro, in História Secreta da Aviação, Assírio e Alvim, Lisboa, 2007

 

 

 

«Todos nós pensamos que a Natureza é uma coisa boa, mas poucos são capazes de apreender a diferença entre natural e não natural. (…)

Os seres humanos não procedem bem quando fazem as suas aldrabices. Deixam os estragos por reparar e quando os resultados desfavoráveis se acumulam, trabalham com todas as forças para repará-los. Quando as acções rectificativas parecem resultar, vêm a tomar estas medidas por esplêndidas realizações. As pessoas procedem assim repetidamente. É como se um louco se lembrasse de partir as telhas do seu telhado caminhando pesadamente sobre ele. Depois, quando começa a chover e o tecto começa a apodrecer, sobe apressadamente ao telhado para reparar os estragos, regozijando-se no fim por ter encontrado uma solução milagrosa.

 Passa-se o mesmo com o sábio. Mergulhado nos livros noite e dia, vai fatigando os olhos e fica míope, e se lhe perguntamos em que é que, c’os diabos, ele pode ter andado a trabalhar todo este tempo – foi para se tornar o inventor dos óculos de correcção de miopia.

[…]

«Apresentei esta sucessão “cereal de inverno/arroz em sementeira directa sem cultivo” nos jornais agrícolas de há vinte anos atrás (…)mas ninguém lhe prestou grande atenção.

Hoje, de repente, a história é completamente diferente. Poder-se-ia dizer que a agricultura selvagem se tornou uma grande moda. Jornalistas, professores, investigadores e técnicso vêm aos magotes visitar os meus campos (…)

Cada um vê este método de um ponto de vista diferente, faz a sua própria interpretação e depois parte. Um, acha que ele é primitivo; outro, que é retrógrado; outro ainda considera-o o pináculo da criação agrícola; e um quarto saúda-o como uma brecha no futuro. Geralmente, as pessoas interessam-se por esta forma de agricultura para saber se ela é um passo no futuro ou um regresso à vida do passado. Poucos são capazes de compreender correctamente que a agricultura selvagem está no centro imutável e inalterável da vida agrícola.

Na medida em que se separam da Natureza, as pessoas afastam-se cada vez mais deste centro.Ao mesmo tempo, uma força centrípeta reinvindica os seus direitos e cresce o desejo de regressar à Natureza. Mas se as pessoas se deixam levar simplesmente pela reacção, indo para a esquerda ou para a direita conforme a situação, o resultado será apenas um acréscimo de esforços. Passamos pela vida sem ver o ponto imutável da nossa origem que se encontra fora do domínio da relatividade. Acredito que mesmo os actos de “regresso à Natureza” e de anti-poluição, por mais recomendáveis que sejam, não conduzem a um desenlace verdadeiro, original, se forem empreendidos apenas como reacção ao super-desenvolvimento dos nossos dias. »

 

Masanobu Fukuoka, in A Revolução de Uma Palha (Uma Introdução à Agricultura Selvagem), Via Óptima, Porto, 2001

Martin Beck,The Environmental Witch-Hunt, 2008, 10’01’’, DvD PAL, cor, som

«Entrei numa livraria. Puz-me a contar os livros que ha para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.

Deve haver certamente outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido.

No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas muito bem vestidas de quem precisa salvar-se

 […]

«Mãe!

Quando eu vinha para casa a multidão ia na outra direcção. Tive de me fazer ainda mais pequeno e escorregadío, para não ir na onda.

Perguntei para onde iam tão unidos, assim, com tanto balanço. Responderam-me: Para deante! Para a frente!

Iam para deante! Iam para a frente!

Fiquei a pensar na multidão.

[…]

«Ha systemas para todas as coisas que nos ajudam a saber amar, só não há systemas para saber amar! »

 

José de Almada Negreiros, in A Invenção do Dia Claro, Assírio e Alvim (ed. Facsimilada), Lisboa, 1921/2005

 

 

 

« (…) Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade? Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande, tenho dito. A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né?(…)Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti. Não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, ah? Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é ‘pequeno burguês’, o menino pertence a uma classe sem futuro histórico… Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho(…)

[…]

«Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe. No fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra. O meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto. »

 

Zé Mário Branco, in FMI, maxi Som 5051106, 1982 (reeditado em” Ser Solidário”, EMI- Valentim de Carvalho,2006)

 

 

 

“de pergunta em pergunta vamos errando,

até que se faz um silêncio a toda a volta, como entre os amantes.”

 

Daniel Melim, in A Uma Floresta Apagada, Ed. Autor, 2009

 

 

Desde que canta, o Homem canta para a Lua. Quem diz canta diz faz vídeos ou escreve ou abre a boca para dizer amo-te. O Homem não sabe para onde vai. Mas tem de ir. E quando lhe doem os pés pergunta-se para onde vai. «O problema começa quando a questão se põe». O Homem raramente sai da Terra, mas passa muito tempo na Lua. Quem diz Lua diz fugindo. Ora, cantar e fugir não são sinónimos, e esta Exposição é prova disso. Ela uiva ficando no sítio onde está. É uma exposição Agora. E cada uivo é como um dedo que aponta. E vem então aquela metáfora: o parvo a quem apontam a Lua mas que fica a olhar apenas para o dedo que a aponta. Tal é o problema (formalista) que esta exposição começa a tentar desfazer com o seu modo de uivar. Faz conferências, mostra documentários, põe pessoas a andar pelo bairro e a fazer propostas para melhorar a vida dos outros, mostra desenhos fresquissimamente verdes e em geral, em todas as peças que efectivamente mostra, para considerar a História do Futuro a exposição aborda sobretudo uma poética da abordagem. Lembraria um daqueles animais que, criado em cativeiro, é de novo restituído ao seu habitat original e começa então as primeiras investidas no meio. Parece tentar sacudir certos hábitos que lhe ficaram da jaula. Será a poética da abordagem ainda um tique da jaula ou táctica instintiva do predador adaptada ao terreno em que se move? Desde muito pequenina que esta exposição uiva, e uiva apontando para as várias direcções da pergunta do tempo. Por favor não olhem tanto para o dedo, olhem para as direcções. As direcções aqui têm cinco nomes, mas se multiplicarmos pelas dúvidas que há em cada autor, são uma infinidade. O animal uiva para saber que está na Terra. Mas só em presença da Lua. Fazer nasce ao centro estilhaçado destes dois puxares: para cima, para baixo. Fazer canta. Na cabeça de um lobo exposto, fazer canta em forma de pergunta. Esta exposição tem um modo muito específico de perguntar-se porque é que nunca se sabe. E, no pouco que se sabe, fala da Lua e não dos dedos.

Agora, por causa de um problema prático que o autor deste texto tem, e pela convição da sua intenção e exigência o protegerem da legítima dúvida de ser oportuno fazê-lo aqui, vai terminar fazer um elogio e, para o explicar melhor, vai acrescentar ainda duas perguntas: O elogio é para esta alcateia de geometria variável que tem vindo entre nós a materializar diversas coisas importantes, como este ciclo dos Estados Gerais, e que são o exemplo vivo do que pode ser materializado por fazedores apaixonados pelo seu fazer mas que trabalham em conjunto para algo mais amplo do que a mera soma deles todos juntos. O problema prático do autor deste texto é a falta de animais nesta floresta. Seja o elogio como sol. Sejam os molhes de questões como água e (talvez duro) alimento para estes e outros.

Agora finalmente as duas perguntas, ainda tendo em vista o repovoamento. Nos anos sessenta a pergunta seria esta: quando é que o Homem chega finalmente à Lua? Hoje a pergunta é: quando é que o Homem finalmente chega à Terra?

 

Daniel Melim