Encontrar petróleo dentro de quatro paredes (João Jacinto)

 

(originalmente publicado a 29 de Abril de 2009, no blogue www.oinfinitoaoespelho.blogspot.com)

 

 

O João Jacinto pinta no chão e desenha na parede. O João Jacinto “nunca fechou um tubo de tinta, nunca deitou fora uma pintura e nunca limpou um ateliê.” Quando está intrabalhável, muda. O ateliê ainda trabalhável dele situa-se agora nuns arrebaldes de Tires, entre sucateiros e casas de emigrantes. A viagem até lá abana-te a cidade e o campo até já não estares em nada disso, mas entre uns fascinantes restos do que vai podendo ser o humano: três quartos de casa por pintar, piscinas ao alto à berma da estrada, um exército de escavadoras prontas a serem vendidas, mato a consumir um barco varado em um de mil quintais baldios. Tivemos de contornar várias pôias de cão desde portão da rua até chegar à porta do espaço: uma ampla garagem, repleta de pinturas no chão e de desenhos na parede. Ele adora aquele seu improvável retiro. Às vezes é visitado por crianças, através da única e alta janela que o espaço tem. É fácil de perceber que as crianças se fascinem por aquele mar de cores deitadas sempre a novidar-se, por aquele homem de fazer compenetrado. O João trabalha a horas certas, com temas certos. Três ou quatro vezes por semana vai lá fazer isto: mexer aquele mar de cores até haver uma pintura ou desenhar casas de pintores mortos ou desenhar auto-retratos a partir sempre de um mesmo pequeno e embaciento espelho ou desenhar uma rosa a partir de uma mesma foto que a cada dia se antiga mais. Abstração, imaginação, desenho de modelo, versões de uma imagem: quatro direcções. Pinturas a muitíssimo óleo sobre tela, desenhos a carvão e cinza de charuto sobre papel. Eis o programa. E chega. quatro direcções: vai para todo o lado. Totalmente livre, só faz aquilo. Não me parece que tão cedo o programa mude. Agora o fazer: não sabe, faz. Isto, dito, é demasiado um lugar comum; é preciso ver o não-saber dele (desta vez até 8 de Maio, desenho, na João Esteves de Oliveira, à Rua Ivens, Lisboa) para se saber directamente o quanto o que ele faz é sobretudo extrema inteligência plástica somatizada, não sabida. O João sabe muito bem que na maioria das vezes o melhor é estar calado e simplesmente fazer. As suas pinturas não têm título. Porque ninguém sabe, acrescentaria eu. Pintura para ele seria talvez: como nunca saber e insistir sempre em fazê-lo, com cores ferozes de afectividade. É também o modo como as suas extensas leituras suam através das mãos caladas.

  Vou dizer uma lista de coisas acerca da sua pintura, as quais juro piamente que o artista não subscreve: 
carne sobre carne.
os dentes do mundo morderam-te e esvais-te em cores.
luta de vontades sem nome.
pinturas antigas absolutamente agitadas.
o calor clássico derrete os olhos e não sabe nunca que ruínas vai erguer.
bicho de tinta em fuga deixa rastos de vontades.
toda a pintura um dia estará pronta.
demasiado inteligente para fiar-se na lógica.
não podes comer o mundo, então vingas-te mostrando mercados não comestíveis.
se conduzires virando sempre para a rua onde a luz é mais Luz, acabarás seguramente num subúrbio estranhíssimo.
vagabundo dormindo há 13 noites debaixo de uma tela antiga que roubou de um museu e desengradou para se tapar.
na luta entre a luz e as coisas ganhou a luz, embora ficando tonta da forma das coisas.
rastos de vontades fiam-se na lógica e vão bater a fora da pintura.
roubar luz de um subúrbio antigo.
carne sobre as ruas antigas agitadas.
se não podes conduzir o mundo, diriges-te para a luz.
a lógica está de rastos e tem as vontades prontas.
a inteligência ergue ruinas, a cor aloja-se lá.
vingar-se da lógica comendo o mundo.
vende-se tinta barata para restos de vontades.
um dia a luz estará pronta.
um dia a carne em flores sobre as coisas.
mãos como dentes com o passado lá dentro.
tinta em forma de vontade.
flores como lógicas antiquíssimas.

Estas são, de resto, as únicas coisas que consigo dizer com lógica acerca da sua pintura. Com menos sentido mas talvez mais consequente: se a sua arena é a pintura e os seus limites, refazer interminável e auto-referente (até que: Pintura), não há contudo indulgência na sua abstração, não é uma canção de embalar para intelectuais gordos: a sua pintura tem um músculo de mundo que, se se estiver aberto a tais coisas, provoca até ao fundo do cérebro visual. É o coração de uma revolução calma, madura. Que inspira à agitação como side-effect, não como intenção. Não me parece que fizesse sentido perguntar-lhe porque pinta ou que ele pudesse sequer responder em acordo total com que o faz pintar. Uma árvore não existe para ser bela nem sabe porque é que existe. Mas É. Vou só dizer mais uma coisa: o João Jacinto é um dos mais estimulantes pintores vivos. Ponto. Como não há pose nem marketing em torno, só ainda não se reparou de facto nisso. Ainda bem, agora ainda posso dizer quase impunemente algumas incongruências acerca dele.

Quanto ao desenho, agrafado nas paredes do ateliê até que alguém consegue salvar alguns acabados do seu ever-working fazer e os vende ou expõe, o desenho desdobra-se, como se disse, nas três direcções restantes: auto-retratos, casas de pintores mortos e rosas. O João Jacinto, excelente e muito referencial professor de desenho (quem estudou na FBAUL na última década que confirme a sua influência), fuma imenso charutos. Tem uma enorme pilha de caixas deles junto à mesma lareira que é encimada por um conjunto de pequenos, histriónicos e coloridos bonecos de plástico do seu pequeno filho. Ele sabe os estranhíssimos nomes de todos eles. Nessa lareira acumulam-se as cinzas que depois são usadas para: os desenhos. Os desenhos, nas suas três direcções, estendem-se num magma de cinzas que ora aflora num reconhecimento não-difícil do referente (rosa, casa, retrato), ora faz o referente aflorar após um reconhecimento árduo, estafado, estranhado das superfícies, por vezes espantosas, a partir das quais ele se ergue. Vou recordar uma coisa que ele referia com muita força nas aulas, filtrada que seja pelo tempo e pelo que inevitavelmente me vai interessando mais: às vezes aquilo que nós chamamos erro ou acidente ou parte mal desenhada, se é aceite e assimilada no fazer da página, transforma-se naquilo que de verdadeiramente surpreendente e interessante essa página de desenho tem. Aplica-se totalmente a muito do que é mostrado em Rosa Rosarum. Só se deve pregar o que se pratica. Não vou dizer mais coisas sobre a exposição, nem vou mostrar imagens dela antes que acabe. Está lá mais uma semana, é preciso ir ver, directamente.

Uma das mais belas recordações que tenho da inauguração dessa excelente exposição de desenho é ver o João Jacinto dedicadamente a brincar com o seu filho, com os tais pequeníssimos e coloridos bonecos. Os nomes? Não. As imagens, o seu calor, “fundo de ignorância” e vida.

 

Daniel Melim

(legendas, por ordem de aparição: 75,5 x 59 cm; 162,5 x 130,5 cm; 41,5 x33,5cm – todas: óleo sobre tela)