{tab=poemas}

as palavras sobre o mundo

têm o mesmo efeito que a lingerie sobre os teus seios.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

arquitectura: mulheres de papel

solidificam em forma de abrigo

ao serem expostas ao sol.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

criar é um problema na distinção

entre vigília e sono.

 

o amor é um problema na distinção

entre mim e ti.

 

a vegetação é um problema na distinção

entre deus e a terra.

deus é um problema

entre a cabeça e o estômago: coração.

 

a beleza é um problema

entre o nevoeiro e as árvores.

 

o ar é um velho problema:

ou está dentro ou está fora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

um barco

no teu sangue

navegado até ao coração.

depois bombeado

até à mão

que me darias.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

escrever: organizar montanhas

para a água passar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ela veio no tempo.

ele veio no espaço.

encontram-se em mim, nasço.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

os nossos pensamentos

são os carros na auto-estrada.

nós somos a floresta atravessada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

QUARTO

um quarto é a empatia da pele com as paredes.

o coração dorme lã por dentro e vive

no sonho como criança no campo as primeiras coisas.

pela manhã, sol na tez, a casa morena,

a criança caiada.

a parede é um lençol de estar levantado;

acordar fresco entre elas,

como erva subindo da terra.

estendal de ouvir o vento.

no quarto certo

ou as nuvens amparadas pelo tecto,

à escrivaninha pintada de verde (no quarto branco)

escrevo como pensamento tranquilo em cabeça deitada.

ave desiquilíbrida instante rápido sombra na janela,

vem ter comigo a ser criança a vê-la.

vestido pelo meu quarto como uma menina pela mãe,

saio para a rua e tenho: eis a fachada nua.

rei farto de honestidade,

farsão sentado na nuvem,

bobo da corte à janela,

corcel de primeira bela.

o quarto é os braços da mãe,

pensar é a teta das lendas,

entrar no quarto é adormecer e sair à rua.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ressonar: necessário arrastar de móveis

para a cena seguinte do sonho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

tempo: é as marcas

das pontas dos dedos

(ponteiros)

da gente a agarrar-se às coisas.

 

é as moscas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

solidão: correndo o risco de endoidar,

o ar esculpe-te até revelar a semente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

daqui a cem anos estaremos todos mortos

mas as nossas árvores amarão juntas em segredo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

{tab=histórias}

A TAÇA DE CHÁ

Uma taça de chá, os modos de a atravessar. As formigas vieram na longa mesa de madeira bruta e subiram o caldeirão de porcelana, a taça. Reuniram-se e consideraram atravessar o líquido. Umas falavam da sua cor, outras do cheiro, outras do modo mais seguro de chegar ao formigueiro. Umas foram pela beira da chávena, rodeando numa circunferência perfeita o bordo onde as bocas costumam ir buscar os líquidos. Desenhando o seu perímetro cuidadoso, lá de cima observavam
as de lá de baixo. As de lá de baixo houveram ousado descer, umas foram pelo líquido adentro outras por onde der. Junto aolíquido cada vez menos fumegante, umas quantas juntaram-se e foram no périplo lacustre, cuidadosamente. Andavam rapidito junto à beirinha do lago de chá, indo inclinadas pela superfície
branca inclinada. O calor da água chalada aquecia-lhes a metade esquerda do corpo, já que davam a volta pela metade direita da taça de chá. Das que foram pela água adentro, houve dois grupinhos: um lançou-se a nado, outro à boleia nas folhas de chá
que abeiravam a superfície do líquido. Quem se lançou afogou-se,

por mais que esperneie uma formiga não nada. Umas ficaram

mortas à tona, outras no fundo. As que foram à boleia nas folhas

de chá esperaram muito até poderem avançar de uma para outra

folha, porque elas às vezes ficavam dias sem se tocarem. Só

quando duas folhas à deriva se tocavam é que elas podiam passar.

E depois de passarem esperavam que a folhita em que estavam

agora derivasse o mais possível na direcção da margem oposta

àquela da qual partiram. Eram muito poucas estas formigas à

deriva nas folhas de chá que à tona, e mesmo assim tiveram de

separar-se porque cada folhita de chá só dava para uma.

Demoraram vários dias a atravessar, umas mais outras menos. Uma

chegou a usar o cadaverito de uma companheira para flutuar, quando a

sua folha nunca tocava em nada foi o que teve de fazer. Depois chegou

à beira e nunca ninguém falou mais disso. Algumas das que vinham nas

folhas afogaram-se porque experimentaram nadar, outras porque a

folha afundou. As que vieram das folhas juntaram-se no fim às que

rodearam o lago e às que vieram pelo rebordo superior da chávena e

foram todas ter com as que tinham simplesmente ido sempre pela mesa

e rodeado a base da taça. Estas estavam muito aborrecidas e

perguntaram porque é que as outras tinham feito aquilo de ir lá por

dentro. Ninguém respondeu e continuaram viagem.

 

 

 

 

 

O ENCANTAMENTO

 

Deitou as cartas e viu que a Maria não se amigava dele. Pegou

então num facalhão e foi pelo mato adentro. Para não

enlouquecer de raiva esculpiu uma barca. Navegou nela sete dias

e chegou a uma ilha encantada. Lá, um mouro pediu-lhe três

desejos, que ele havia de lhos conceder. O homem, como era de

bem, pediu para voltar à terra e que lá fizesse fortuna e tivesse

Maria por sua esposa. Voltou então à terra demorando desta vez

apenas dois dias, sendo que lhe apareceram os bolsos cheios de

ouro e Maria a seu lado logo depois de aportar a barca. Vendo

que ele era um homem que sabia controlar a sua raiva, Maria

contou-lhe que tinha feito um contrato com o dono da floresta

que deu a madeira para fazer o papel das cartas dele deitar e para

o barco e também estava apalavrada com o mouro encantado, de

maneira que tudo aquilo era um testesinho e vão ter muitos filhos

vivendo muito tempo felizes na sua terra. Mas ele achou que era

demais cenariar aquilo tudo, como se ele um brinquedo

navegando nas ideias dela para um lado e para outro, conforme

ela a soprar. E largou tudo aquilo e ali mesmo o amor que lhe

tinha, de trombas aviado para fora daquelas provices. E foram os

dois dificilmente palavras até fora do bosque, até fora da história.

E, lá sim, já fora das folhas, casaram. Ele vestido de Maria, ela

vestida dele, ela dizendo desculpa e ele dizendo não faz mal já fiz

igual, os dois cheios de dúvidas e iguais aos outros todos, às vezes

felizes às vezes na merda, às vezes personagens às vezes sendo de

verdade.

 

 

 

 

OS HOMENS E AS MULHERES

 

Na estação, despediram-se os homens das mulheres e elas

partiram para a Lua. Quando lá chegaram fizeram queijo para se

esquecerem da tristeza e a cada buraco desse queijo disseram um

segredo. Quando foram para o mar, os homens deitaram segredos

dentro de garrafas depois de as beberem para não ficarem tristes.

Por isso é que a água e o leite correm muito quando eles se

encontram de novo. Os homens e as mulheres à noite falam

baixinho um com o outro dentro da casa, porque os ratos sabem

os segredos tristes da distância guardados nos armários e nos

porões e roem muito e por todos os lados.

O vento sopra na rua. A lua está sobre o mar. A casa está

parada a amar. À volta os ratos roem.

 

 

 

 

 

O CANSAÇO

 

Não estava maluco, estava cansado. Cansado e fodido com a

vida caminhava todos os dias em direcção ao pôr-do-sol com uma espingarda

da mão.

Disparava, mas o filho da puta do sol da maravilha nascia

sempre de novo nas suas costas.

 

 

 

 

A NÓDOA

 

Não passava de uma nódoa. Era uma nódoa no pano branco.

Já se tinham tentado várias abordagens, nomeadamente lixívia,

sais, beijinhos e pó-de-arroz. Mas ali estava ela, a pedir atenção e

a tê-la. Numa casa de família as nódoas são sempre o centro. Lá

em baixo na nódoa, as espécies 2 e 3 não sabiam bem o que lhes

sucedia: corriam de um lado para outro como se o fim estivesse

próximo. Havia então várias opções a viver entre as espécies:

comerem-se entre si ou batalharem-se unhamente contra o

invasor. Uma outra vez foi a unha que esfregou na nódoa e não

sabiam elas que espécie de coisa é uma unha, mas sabiam dos

efeitos.

E foram-se esgotando as opções até que espécie 1, silenciosa

como sempre, apresentou a sua hipótese: Aceitar, deixar-se

morrer. Se ninguém compreendeu esta opção, ela foi no entanto

ficando por aí até que as lutas 2 e 3 abrandaram. O ácido cítrico

estava já a ser preparado para agir sobre a toalha quando a opção

da espécie 1 foi unanimemente aceite pelos 2 e 3. E então, numa

coincidência que supõe ligações sem teoria, o pano foi

subitamente abandonado a um canto português, porque a mãe

recebeu um abraço que aguardava da sua mãe há trinta e cinco

anos, permitindo assim que as três espécies de bolor se multiplicassem

no pano por gerações e gerações, em miríades de cores inacreditáveis e

maravilhosas.

 

 

 

 

 

A RUA DO AMOR

 

Passa uma caravana à frente da Rua do Amor. A caravana está

cheia de mulheres. As mulheres têm lenços coloridos nas mãos e

agitam-nos por fora das janelas. A caravana tem muitas mãos pelo

lado de fora. As varandas da Rua do Amor têm muitas flores nas

varandas. A caravana é branca. Lagartas passam em várias folhas

das plantas presentes à varanda. O tempo é dividido pelas várias

coisas presentes. Ora: as mulheres na caravana passam como uma

lagarta pela rua. A Rua do Amor está cheia de mãos à janela a

regar as plantas, braços de fora deixando cair água nos vasos.

Gotas caíam no passeio. Está uma luz de três da tarde em Lisboa:

um auge já um pouco oblíquo. As mãos continuam de fora, a

apanhar luz e mosquitos. Nunca se viam as faces de quem regava

as plantas. A caravana tinha passado, como e quando uma lagarta

cai da varanda à rua sem morrer. Continuava agora a lagarta

pelos charquinhos de água pingada lá em baixo na calçada; a

memória é um charco. O animal é verde. Neste momento há três

maçãs a serem comidas e duas camas a serem usadas na Rua. O

sol estar avermelhado, as casas amarelas ou por aí, as flores

vermelhão esmeralda azul violeta simples esticadas por todos os

lados ao alcance de cada mão. As mulheres tinham passado já

havia um tempo. Ainda pairava no ar o perfume eriçado das

flores acabadas de regar. As varandas babavam-se delicadamente

para o passeio e o sol ajudava a transformá-las em algo

interessante. Os insectos distribuíam qualidades pelas várias

regiões da rua. O vento era totalmente descarado e voava no

sentido contrário ao que levaria ao pedaço de chão aonde haviam

passado as belas moças em caravana e lenços. O vento tinha

contudo sementes em trânsito, e estas eram úteis. Os únicos olhos

presentes a toda esta Rua eram os que narravam isto, mas

ninguém sabe a quem são. Continuando o sonho: a vida é verde,

isto passa-se num lugar de chuva, os amores encostam-se aos

muros e deixam passar as terríveis palavras para que cheguem até

nós. Pff!, narrar aquela luz com esta sombra de letrinhas…

Continuemos debaixo das folhas e continuemos lagarta pelos

charcos, reconstruindo letra a letra e desajeitadamente já muito

passado: a caravana das mulheres na rua sem olhos. Tínhamos

portanto: varandas babadas, uma metáfora lagarta-mulheres,

outra charco-passado, e uma luz maravilhosa a dar nisto tudo. Foi

referido que era um sonho, portanto vai durar pouco. Vejamos:

comer maçãs, usar camas. Passou há muito tempo uma caravana

(daquelas de campismo, brancas) com uma mulher de mil braços

a acenar em todas as direcções. As flores desfizeram-se então das

varandas e das sementes caídas nascem homens. Os homens não

tinham olhos, por isso desaparecem. As mulheres nunca

existiram. Tudo isto dentro do caroço de uma maçã. Um bocejo.

Bom dia.

{tab=livro É (poemas)}

É [pdf]

{tab=livro Repovoamento (histórias}

Repovoamento [pdf]

{/tabs}