A TAÇA DE CHÁ

Uma taça de chá, os modos de a atravessar.

As formigas vieram na longa mesa de madeira bruta e subiram o caldeirão de porcelana, a taça. Reuniram-se e consideraram atravessar o líquido. Umas falavam da sua cor, outras do cheiro, outras do modo mais seguro de chegar ao formigueiro. Umas foram pela beira da chávena, rodeando numa circunferência perfeita o bordo onde as bocas costumam ir buscar os líquidos. Desenhando o seu perímetro cuidadoso, lá de cima observavam as de lá de baixo. As de lá de baixo houveram ousado descer, umas foram pelo líquido adentro outras por onde der. Junto ao líquido cada vez menos fumegante, umas quantas juntaram-se e foram no périplo lacustre, cuidadosamente. Andavam rapidito junto à beirinha do lago de chá, indo inclinadas pela superfície branca inclinada. O calor da água chalada aquecia-lhes a metade esquerda do corpo, já que davam a volta pela metade direita da taça de chá. Das que foram pela água adentro, houve dois grupinhos: um lançou-se a nado, outro à boleia nas folhas de chá que abeiravam a superfície do líquido. Quem se lançou afogou-se, por mais que esperneie uma formiga não nada. Umas ficaram mortas à tona, outras no fundo. As que foram à boleia nas folhas de chá esperaram muito até poderem avançar de uma para outra folha, porque elas às vezes ficavam dias sem se tocarem. Só quando duas folhas à deriva se tocavam é que elas podiam passar. E depois de passarem esperavam que a folhita em que estavam agora derivasse o mais possível na direcção da margem oposta àquela da qual partiram. Eram muito poucas estas formigas à deriva nas folhas de chá que à tona, e mesmo assim tiveram de separar-se porque cada folhita de chá só dava para uma. Demoraram vários dias a atravessar, umas mais outras menos. Uma chegou a usar o cadaverito de uma companheira para flutuar, quando a sua folha nunca tocava em nada foi o que teve de fazer. Depois chegou à beira e nunca ninguém falou mais disso. Algumas das que vinham nas folhas afogaram-se porque experimentaram nadar, outras porque a folha afundou. As que vieram das folhas juntaram-se no fim às que rodearam o lago e às que vieram pelo rebordo superior da chávena e foram todas ter com as que tinham simplesmente ido sempre pela mesa e rodeado a base da taça. Estas estavam muito aborrecidas e perguntaram porque é que as outras tinham feito aquilo de ir lá por dentro. Ninguém respondeu e continuaram viagem.

 

 

 

 

 

 

 

 

O ENCANTAMENTO 

Deitou as cartas e viu que a Maria não se amigava dele. Pegou então num facalhão e foi pelo mato adentro. Para não enlouquecer de raiva esculpiu uma barca. Navegou nela sete dias e chegou a uma ilha encantada. Lá, um mouro pediu-lhe três desejos, que ele havia de lhos conceder. O homem, como era de bem, pediu para voltar à terra e que lá fizesse fortuna e tivesse Maria por sua esposa. Voltou então à terra demorando desta vez apenas dois dias, sendo que lhe apareceram os bolsos cheios de ouro e Maria a seu lado logo depois de aportar a barca. Vendo que ele era um homem que sabia controlar a sua raiva, Maria contou-lhe que tinha feito um contrato com o dono da floresta que deu a madeira para fazer o papel das cartas dele deitar e para o barco e também estava apalavrada com o mouro encantado, de maneira que tudo aquilo era um testesinho e vão ter muitos filhos vivendo muito tempo felizes na sua terra. Mas ele achou que era demais cenariar aquilo tudo, como se ele um brinquedo navegando nas ideias dela para um lado e para outro, conforme ela a soprar. E largou tudo aquilo e ali mesmo o amor que lhe tinha, de trombas aviado para fora daquelas provices. E foram os dois dificilmente palavras até fora do bosque, até fora da história.  

E, lá sim, já fora das folhas, casaram. Ele vestido de Maria, ela vestida dele, ela dizendo desculpa e ele dizendo não faz mal já fiz igual, os dois cheios de dúvidas e iguais aos outros todos, às vezes felizes às vezes na merda, às vezes personagens às vezes sendo verdade. 

 

 

 

 

 

 

 

 

OS HOMENS E AS MULHERES 

Na estação, despediram-se os homens das mulheres e elas partiram para a Lua. Quando lá chegaram fizeram queijo para se esquecerem da tristeza e a cada buraco desse queijo disseram um segredo. Quando foram para o mar, os homens deitaram segredos dentro de garrafas depois de as beberem para não ficarem tristes. Por isso é que a água e o leite correm muito quando eles se encontram de novo. Os homens e as mulheres à noite falam baixinho um com o outro dentro da casa, porque os ratos sabem os segredos tristes da distância guardados nos armários e nos porões e roem muito e por todos os lados.  

O vento sopra na rua. A lua está sobre o mar. A casa está parada a amar. À volta os ratos roem. 

 

 

 

 

 

 

 

 

O CANSAÇO 

Não estava maluco, estava cansado. Cansado e fodido com a vida caminhava todos os dias em direcção ao pôr-do-sol com uma espingarda da mão.  

Disparava, mas o filho da puta do sol da maravilha nascia sempre de novo nas suas costas. 

 

 

 

 

 

 

 

 

A NÓDOA 

Não passava de uma nódoa. Era uma nódoa no pano branco. Já se tinham tentado várias abordagens, nomeadamente lixívia, sais, beijinhos e pó-de-arroz. Mas ali estava ela, a pedir atenção e a tê-la. Numa casa de família as nódoas são sempre o centro. Lá em baixo na nódoa, as espécies 2 e 3 não sabiam bem o que lhes sucedia: corriam de um lado para outro como se o fim estivesse próximo. Havia então várias opções a viver entre as espécies: comerem-se entre si ou batalharem-se unhamente contra o invasor. Uma outra vez foi a unha que esfregou na nódoa e não sabiam elas que espécie de coisa é uma unha, mas sabiam dos efeitos. 

E foram-se esgotando as opções até que espécie 1, silenciosa como sempre, apresentou a sua hipótese: Aceitar, deixar-se morrer. Se ninguém compreendeu esta opção, ela foi no entanto ficando por aí até que as lutas 2 e 3 abrandaram. O ácido cítrico estava já a ser preparado para agir sobre a toalha quando a opção da espécie 1 foi unanimemente aceite pelos 2 e 3. Sim, seja morrer. E nesse então, com uma coincidência que supõe ligações sem teoria, o pano branco foi subitamente abandonado a um canto português, porque a mãe recebeu um abraço que aguardava da sua mãe há trinta e cinco anos, permitindo assim que as três espécies de bolor se multiplicassem no pano por gerações e gerações, em miríades de cores inacreditáveis, maravilhosas e em nada fáceis.   

 

 

 

 

 

 

 

 

A RUA DO AMOR

Passa uma caravana à frente da Rua do Amor. A caravana está cheia de mulheres. As mulheres têm lenços coloridos nas mãos e agitam-nos por fora das janelas. A caravana tem muitas mãos pelo lado de fora. As varandas da Rua do Amor têm muitas flores nas varandas. A caravana é branca. Lagartas passam em várias folhas das plantas presentes à varanda. O tempo é dividido pelas várias coisas presentes. Ora: as mulheres na caravana passam como uma lagarta pela rua. A Rua do Amor está cheia de mãos à janela a regar as plantas, braços de fora deixando cair água nos vasos. Gotas caíam no passeio. Está uma luz de três da tarde em Lisboa: um auge já um pouco oblíquo. As mãos continuam de fora, a apanhar luz e mosquitos. Nunca se viam as faces de quem regava as plantas. A caravana tinha passado, como e quando uma lagarta cai da varanda à rua sem morrer. Continuava agora a lagarta pelos charquinhos de água pingada lá em baixo na calçada; a memória é um charco. O animal é verde. Neste momento há três maçãs a serem comidas e duas camas a serem usadas na Rua. O sol estar avermelhado, as casas amarelas ou por aí, as flores vermelhão esmeralda azul violeta simples esticadas por todos os lados ao alcance de cada mão. As mulheres tinham passado já havia um tempo. Ainda pairava no ar o perfume eriçado das flores acabadas de regar. As varandas babavam-se delicadamente para o passeio e o sol ajudava a transformá-las em algo interessante. Os insectos distribuíam qualidades pelas várias regiões da rua. O vento era totalmente descarado e voava no sentido contrário ao que levaria ao pedaço de chão aonde haviam passado as belas moças em caravana e lenços. O vento tinha contudo sementes em trânsito, e estas eram úteis. Os únicos olhos presentes a toda esta Rua eram os que narravam isto, mas ninguém sabe a quem são. Continuando o sonho: a vida é verde, isto passa-se num lugar de chuva, os amores encostam-se aos muros e deixam passar as terríveis palavras para que cheguem até nós. Pff!, narrar aquela luz com esta sombra de letrinhas…  

Continuemos debaixo das folhas e continuemos lagarta pelos charcos, reconstruindo letra a letra e desajeitadamente já muito passado: a caravana das mulheres na rua sem olhos. Tínhamos portanto: varandas babadas, uma metáfora lagarta-mulheres, outra charco-passado, e uma luz maravilhosa a dar nisto tudo. Foi referido que era um sonho, portanto vai durar pouco. Vejamos: comer maçãs, usar camas. Passou há muito tempo uma caravana (daquelas de campismo, brancas) com uma mulher de mil braços a acenar em todas as direcções. As flores desfizeram-se então das varandas e das sementes caídas nascem homens. Os homens não tinham olhos, por isso desaparecem. As mulheres nunca existiram. Tudo isto dentro do caroço de uma maçã. Um bocejo. 

Bom dia.